sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Sexta-feira de Devaneios

 Meto as chaves na fechadura e rodo-as, para se abrir à minha frente o silêncio de mais um dia terminado.

A mochila pesa um mundo, os sapatos apertam-me, a roupa incomoda e o soutien sufoca-me. Dirijo-me, em piloto automático, para o closet e despejo-me de todo o armamento de mais um dia de trabalho. A Bree abana o rabo alegremente por me ver, após várias horas de diversão numa casa só pra ela. Respiro fundo, deixo-me cair no sofá sem forças para me mexer dali. São 19h30, tenho fome, sinto-me suja e suada, mas o cansaço parece estar entranhado na minha pele e não me deixa mexer um músculo sequer. Atiro a cabeça pra trás, deixando-a cair nas almofadas, enquanto o barulho de alguém no corredor se entranha no meu cérebro. Gostava que fosses TU. Um alguém sem nome, um homem sem rosto, um porto de abrigo sem lugar definido. TU, aquele que iria entrar na sala, vestido com um sorriso aberto, uns braços calorosos e uns calções de ganga desbotados pelo tempo. TU, aquele abraço seguro que me ia aconchegar no final do dia, enquanto me perguntava como correu. Não tens nome, não tens berço, não tens forma, só essência - AMOR.

Mas em vez de ti, são só uns vizinhos que não consegui distinguir e que tal como eu, terminam também mais um dia de trabalho. Pela fração V, sou só eu e a Bree, e o silêncio de mais um dia terminado.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Vazio.

Ter um vazio no peito é exatamente isso. Um vazio. Há muita coisa que pode ser dúbia na língua de Camões, mas o vazio é o vazio. É como um fado que chora de saudade - talvez porque este vazio vem de uma espécie de saudade, ainda que masoquista. É um vazio que independentemente da hora do dia que seja, independentemente da tarefa que tenhamos em mãos, da pessoa que esteja à nossa frente, o vazio está lá, a sugar-nos por dentro. O vazio é o ar que não se respira, o engolir que é em seco, a cabeça que não dói mas mói e onde meia volta sentimos aquela sensação de uma lágrima mais aventureira querer saltar dos nossos olhos. 

E falar desse vazio é pior, não porque piore - porque não piora! - mas relembra que está lá... É o enfiar um dedo na ferida e remexer até sangrar. É sentir como se parte do nosso ser - do nosso coração principalmente - tivesse sido cortado a frio e arrancado do peito e que agora nos deixou com um batimento cardíaco coxo, meio descompassado, meio perdido, sem saber muito bem como acompanhar o passar do tempo.

Depois, quando tudo se cala, na calada da noite, quando as passadas parecem não soar mais alto que os próprios pensamentos, é aqui que tudo começa.

É quando os nossos olhos buscam algo e não vêm nada, é quando os braços esticam e não alcançam ninguém, só o vazio e um lamento.

É quando a boca se abre, como que em jeito de querer pronunciar algo, proferir um grito ou um ai, que a voz fica presa entre um nó de garganta e um choro engolido. 

É quando o coração tenta bater, mas o sangue parece não pulsar, é quando o cérebro finalmente dá de si e começa a doer, deixa de pensar, deixa o corpo cair e em jeito de tormento vomita todas as memórias nesse vazio, que aumenta mais e mais e mais com o passar do tempo. 

Ter um vazio no peito é exatamente isto. E mais, muito mais. É achar que se morreu por dentro, de dor, de saudade, de tudo e de nada. Do vazio que cresce por dentro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

59.

 


As mães deviam ser eternas porque as filhas precisam das mães até serem velhinhas, precisam das mães mesmo já sendo donas de casa, já sendo crescidas, até mesmo já sendo mães.

Uma filha será sempre uma mulher, uma amiga, uma namorada, uma colega, uma trabalhadora, mas quando perde a mãe a perde também uma parte de ser filha? Perder uma mãe é perder um pedaço de nós. É arrancarem-nos um bocado do coração e atirá-lo também para uma cova.

Hoje a minha mãe faria 59 anos. Hoje iríamos juntar-nos à mesa, Ela iria reclamar do tamanho do bolo que eu teria feito para lhe cantar os parabéns e iria reclamar de ter gasto dinheiro numa prenda porque não precisa de nada. “Ter-te a ti e ao Pai é tudo o que preciso”. E agora que eu e o Pai não te temos a ti? Como é? 

Não tenho sequer voz para te cantar os parabens nem fôlego para soprar as velas por ti. 

Não tenho a tua voz encostada ao meu peito, nem os meus braços à tua volta, enrolados com os teus à minha volta, mas tens o meu coração para sempre contigo.

Hoje até o céu chora. Parabéns Mãe. 🖤

terça-feira, 28 de abril de 2020


Abro os olhos devagar. Chove imenso lá fora e além das gotas de água a atacarem furiosamente os telhados, não se ouve mais nada. 
Os meus olhos fixam o vazio, especados, como se fossem duas crianças com medo do bicho papão.
O meu telemóvel indica que são oito horas e assim me diz que começou mais um dia.
Levanto me a custo, esfrego os olhos e as remelas relembram mais uma noite adormecida com o embalo das lágrimas.
Recordo-o. Recordação que dói, como se tivesse a espreitar um curativo apenas pra me dar conta que a ferida ainda estava aberta. 
A acompanhar o meu cérebro, preso naquele loop de lembranças, estão as minhas passadas mecanizadas. O meu corpo acordou, mas apenas isso. Todo o resto de mim está dormente, anestesiado, como se tivesse tomado uma injeção de morfina para aguentar mais um dia.
Olho-me ao espelho e sorrio ao recordar como é fácil usar uma máscara. Aprendemos desde cedo a construí-las e prendê-las ao nosso rosto - com uma tesoura de pontas redondas recortamos com cuidado o rosto escolhido (branca de neve, fada, anjo, anões, esquilos, o limite era a imaginação) e depois um elástico preso por dois furinhos, um de cada lado. Não muda muito em adultos: dois furos para os olhos e todo o rosto é coberto com base, pó, óculos de sol e esgares de sorrisos forçados... o mundo não precisa saber a escuridão que trago cá dentro.
É incrível - mas que de incrível não tem absolutamente nada - como pode ser fugaz algo que outrora foi tão intenso (pelo menos para um de nós). 
A decisão foi minha, como têm sido todas as decisões nos últimos anos. 
Eu ora decido afastar-me, ora decido ter relações tóxicas, ora decido trair a confiança, ora decido trair o meu amor próprio. 
Eu decido entrar constantemente naquela espiral, como se de alguma forma me fizesse sentir melhor comigo mesma, como se cada entrada em cada montanha russa fosse uma desculpa para o falhanço total que é a minha relação com o aquele filho da mãe: o Amor.
É incrível como em determinas alturas da nossa vida nos conseguimos identificar com determinada música que dá na rádio, ou frase feita na qual que tropeçamos pela internet fora.
Subitamente cremos que o universo nos fala ao coração. Cremos que alguém espia os nossos passos, ouve as nossas conversas (e os nossos pensamentos?) e transforma em frases perfeitamente inteligíveis desabafos que até então balbuciávamos, com severa dificuldade, a ouvidos alheios que ainda tinham paciência para os ouvir (e alguns conselhos destrocados, em sobra, para nos dar). E então aquela melodia que até esse momento trauteávamos distraidamente, aquele conjunto de palavras - das quais sabemos de-trás-prá-frente o significado- subitamente tornam-se como que magicamente iluminadas com brilhos néon e tomam aos nossos olhos (e aos nossos corações desfeitos) proporções emocionalmente gigantescas.
E com isto aquele vazio dilacerante no peito volta, como se dele o meu coração tivesse sido arrancado, desfeito em mil pedaços e atirado ao lixo, como um trapo velho.
Chega então a altura em que só queremos dizer «Chega!». Queremos que a nossa vida seja projetada em forma de livro e possamos saltar diretamente para o último capítulo, só para ter a certeza que acaba tudo bem. 
Queremos a luz de um farol no meio da noite escura num mar agitado que atravessamos.
Queremos uma mão amiga que nos puxe e sacuda o pó da roupa.
Queremos apenas saber que tudo isto vale a pena. 
Que todas as lágrimas, todos os choros sufocados em soluços mudos tragam o final feliz que é vendido como o único final possível. 
No fundo, queremos que a nossa vida seja como a das pessoas felizes dos anúncios de TV: fabricadas em série, todas iguais, todas de sorriso no rosto, pintado a laser, antes de sermos metidos numa caixa, prontos para sermos expedidos para qualquer mercado social. 
Não me abandonou a vontade de viver, essa nunca!, apenas de amar. 
E por fim, com um suspiro solta-se uma última lágrima. 
Tudo o que nunca quis era aquilo a que toda a minha vida aparentemente se resumia, àquele momento.
Será sempre nele que o meu pensamento se vai focar quando o único barulho que o perturbar for o da chuva. 
Será sempre com saudade que o vou (re)lembrar nas noites frias de inverno. 
Será sempre aquele o perfume que vou sentir nas brisas frescas dos finals de tarde no verão. 
Nada mais foi que um amor fugaz de arrebatar os sentidos, um amor fugaz que se desvaneceu, um amor fugaz que nunca foi meu. 
Já não choro, as lágrimas secaram.




domingo, 12 de abril de 2020

A minha Páscoa

A minha Páscoa começava cedo.
Ao contrario de todos os restantes domingos em que ficava a dormir até tarde, que mal acordasse voava para a cama dos meus pais, o Domingo de Páscoa começava cedo, quando os primeiros foguetes começavam a rebentar no céu azul.
Era possivelmente o Domingo mais atarefado do ano e ainda assim eu era sempre a última convidada a chegar àquela festa que já tinha começado tão cedo.
Quando me estava a sentar à mesa para tomar o pequeno-almoço - «Come bem que já sabes que vamos almoçar tarde e depois dá-te a fome!» ouvia a minha mãe avisar, com voz firme mostrando que eu não tinha outra alternativa (logo eu que nunca fui fã de pequenos-almoços adiantados) - já tinha o meu pai chegado com regueifa fresca, já a minha mãe estava a cozer os ovos com casca de cebola e já o assado estava na assadeira, pronta a ligar.
«Anda, tens que te ir vestir, não tarda está aí o compasso e tu de pijama!»
Já tinha a roupa pronta de véspera, roupa a estrear, passada e perfumada porque a Páscoa era sempre altura de ter roupa nova.
Já a minha mãe e o meu pai tinham varrido os passeios e preparado um tapete de folhas e pétalas de flores coloridas, a demarcar o caminho que haveria em breve de ser feito pelo compasso.
«Despacha-te, já se está a ouvir a campainha, o Compasso está mesmo a chegar»
A porta da sala, que raramente era utilizada - apenas para dar entrada ao Sr. da luz quando vinha recolher a contagem - estava nesse dia aberta, bem como as restantes janelas e portas. A luz invadia todos os recantos da nossa pequena e acolhedora casa, inundando o nosso lar com um brilho especial.
«Shhh, já estão aí a entrar, vem para aqui para a beira do Pai, anda.»
A minha mãe dava todas as ordens e controlava todas as etapas, sob o olhar atento do meu Pai.
O compasso entrava, naquele dia os rostos familiares dos nossos vizinhos ganhavam outra altivez e eu sentia-me intimidada pela seriedade do momento. O meu Pai entregava um envelope como mandava a tradição, e em troca recebíamos o crucifixo para beijar e um postal com a oração daquele ano.
Tudo se passava tão rápido e ainda assim quando recordo esses momentos vejo todos os detalhes como se estivessem a passar em câmara lenta.
Com o passar dos anos a Páscoa foi tomando outros contornos, outros lugares até ficar reduzida a mais uma data sem ouvirmos as ordens da minha Mãe.
Este ano, sem ordens, sem festejos, sem abraços.
Há um assado no forno que não posso partilhar com o meu Pai, há ovos da Páscoa que não foram feitos pela minha Mãe e há saudades.
Este ano, sem abraços e sem conversas de deitar fora como este dia exige.
Este ano, a Páscoa pede o derradeiro ato de amor que nos é exigido: isolamento social, resguardo, protecção.
Que este ano sirva para nos lembrar, em todas as Páscoa vindouras e não só, que o importante é o Amor, é a Família, é ter por perto os nossos, com quem partilhar sorrisos, momentos e comida feitas com o coração, pois tudo o resto, é só mesmo isso, o resto.

quarta-feira, 4 de março de 2020

De mim para mim. De mim para ti. De mim para quem precisar de ouvir tudo isto e talvez mais.


Quando te sentires cinzenta como uma manhã de chuva e nevoeiro:
Aprendi, de novo, que nada é por acaso. Que cada vez que cais e bates no fundo é apenas o embate necessário para te reergueres e iniciares a tua subida com ainda mais força e velocidade. 
Aprendi, de novo, que as desilusões são as lições que precisas para avançar mais um pouco nessa demanda que é a Vida. Que tudo o que sentimos que está a enrijecer, que está a empedernir o nosso coração, na verdade está apenas a fortalecer este músculo tão precioso e tão frágil. 
Aprendi que o universo coloca no nosso caminho as pessoas certas, não necessariamente boas ou más, apenas as certas para te acompanharem naquele momento e te entregarem, ainda que inconscientemente, o seu contributo na tua vida. 
Aprendi que a fé pode ser inabalável desde que tenhas tomado consciência de que tu és a tua única limitação e que nada nem ninguém te pode demover da tua busca pelos teus verdadeiros sonhos. Esses sonhos que sempre moraram aí dentro, entre a Rua do Coração e a Avenida da Inspiração. 
Aprendi que há caminhos que podem assombrar-te, que podem ser tão íngremes que só se ultrapassam sendo escalados, mas que não precisas - nem deves! - fazê-lo sozinha. 
Que podes - e deves! - dar a mão alguém, e está tudo bem! Está tão bem como se optares por sentar-te e recuperar fôlego antes de avançares. 
Porque aprendi também que o tempo é relativo, é medido com o teu relógio especial chamado Instinto, cujo tic-tac insististe sempre em não ouvir, mas que nunca perdeu corda nem saltou nenhum ponteiro. Um relógio especial que funciona no seu próprio fuso horário, e que o teu caminho o vai respeitar se tu também o fizeres. Não significa que estás para trás ou para a frente, ou que estás errada, apenas que estás no teu próprio fuso, no teu próprio ritmo. 
Aprendi que não é fácil, mas nada que valha a pena é. Que faz parte do nosso ADN pensar nisso, e colocar todos as opiniões alheias possíveis numa bimby de julgamentos e auto-sabotagem, mas o segredo na verdade é simples: só tens que fazer o que o teu coração te diz. Só tu podes ser o teu próprio juiz e decidir se esse caminho que estás a fazer, se essa decisão que estás a tomar é a mais acertada ou não. 
Aprendi um mantra sagrado: os outros que se fodam.
Mas a lição mais valiosa que aprendi é que por mais brilhante possa ser um luar num céu limpo e estrelado, que por mais encantador e de tirar a respiração possa ser um pôr-de-sol em pleno fim de tarde num quente dia de verão, nada terá mais luz que o teu sorriso mais puro, nada será mais avassalador que a tua gargalhada de felicidade. Sorri, ama-te e sê feliz. 

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Como se vive sem uma Mãe?

Para muitos esta pergunta é de resposta óbvia e fácil: bem.
Para mim, é ainda não conseguir falar sem doer o peito, sem apertar a garganta e sem cerrar os dentes com força para as lágrimas não caírem.
Há três anos que ando a tentar saber não como se vive mas como se sobrevive sem ti, sem a minha Mãe, e sei que chegarei ao fim dos meus dias sem o saber.
Três anos. Já faz três anos que te levaram para longe de nós. Três anos que o mundo virou um filme a preto e branco, sem falas, sem as tuas gargalhadas, sem o arco íris do teu sorriso que se apagou e deixou para trás as memórias dos nossos dias felizes.
Tenho tantas saudades tuas, tantas que sufocam, que apertam a garganta como a mão de um assassino, estrangulam o nó dos choros tantas vezes engolidos à força de um sorriso amarelo e um “está tudo bem”. 
São tantas as saudades dos teus conselhos, de ouvir a tua voz serena, de ver o teu sorriso luminoso, de me dizeres que tudo vai correr bem. 
“Pensamento positivo atrai coisas positivas.” Se pelo menos te trouxesse de volta... 
Três anos e nada na tua partida faz sentido. 
A maior parte do tempo é como se estivesse num estado de dormência, uma dor adormecida e mascarada pelo quotidiano, pela roda viva que é a Vida, e do nada, uma pequena frase, um gesto, uma referência tem o efeito Borboleta e tudo desaba em mim. O pouco que se vai reconstruindo cai por terra. Hoje foi uma série, amanhã é uma foto nossa. Fazes-me uma falta tão grande que preciso dos meus sonhos para te ver viva e falar contigo, abraçar-te, ouvir a tua voz.
Para muitos deve ser realmente fácil viver sem uma Mãe, eu mal consigo respirar sem a minha.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Natal lá em casa...

O Natal lá em casa começava cedo, no momento em que também começava a procura pelo melhor musgo para o presépio. Nas caminhadas que fazíamos juntos já sabíamos que a dada altura - meados de novembro talvez - os nossos olhos, a mando da Mãe, tinham que ser mais aguçados do que os de uma águia na busca do mais fofo e verde musgo.
Após alguns dias a secar chegava a hora de montar a árvore e o presépio. Todas as figuras embrulhadas delicadamente em pedaços de jornal, as fitas separadas das bolas, em sacos individuais, o teste das luzes e a necessidade de intervenção do meu Pai na troca de alguma lâmpada que tivesse decidido ir mais cedo para a reforma.
Tudo era colocado de forma lógica e carinhosa pelas mãos da minha Mãe e pelo meu olhar atento. A chaminé, a porta da rua, da sala, o centro de mesa, todos tinham direito a uma especial decoração de natal.
Depois de tudo montado começava a contagem decrescente atá ao grande dia, ao mesmo tempo que as prendas se iam acumulando junto à árvore, aguçando a minha curiosidade em espreitar os nomes dos felizes destinatários, tantas vezes quantas ouvia a voz dela ressoar, como se fosse um ponto, "Larga as prendas, no Natal descobrimos!".
O Natal lá em casa começava cedo, quando a minha Mãe começava a andar pelas lojas da terra em busca da prenda perfeita para o meu Pai "O que achas que lhe podemos dar? Ele não precisa de nada, é verdade, mas merece não achas?". A busca durava mas terminava sempre com sucesso. O mesmo não se podia dizer relativamente à nossa  - minha e da minha Mãe - busca pelos lugares secretos onde o meu Pai escondia as prendas que já nos tinha comprado há muito - nunca houve um ano que tivéssemos conseguido descobrir o esconderijo escolhido!
A consoada lá em casa também começava cedo. As compras eram feitas na semana anterior, com tempo, para que no dia não faltasse nada...mas faltava sempre alguma coisa! Ora açúcar, ora chocolate em pó, ora ovos...
Consigo lembrar-me como se fosse hoje a hora da confecção dos doces: a mousse acabada de fazer significava hora de lamber os batedores; a aletria quente nas travessas significava hora de sentar 5 minutos e comer as sobras numa tigela junto à salamandra já acesa desde cedo. As rabanadas ainda a ferverem na travessa significava hora de roubar algumas e escapar às palmadas nas mãos da ladra de doces - eu!
Já à noite, com a mesa posta e com o bacalhau quase pronto começavam as filmagens - sim, as filmagens! Todos os natais registados em vídeo pelo meu pai (com grandes planos que definitivamente deveriam ser cortados caso fossem para transmitir a olhos alheios) e novamente, de fundo, a voz de ponto "Oh homem pára de filmar o meu c* e ajuda a tua filha a pôr a mesa!".
A tradição de Natal não acabava antes da Missa do Galo: fizesse frio ou chuva, às 23h em ponto estávamos a entrar no carro para ir assistir à missa - escusado será dizer que assistia em pulgas, já que era a última etapa que me separava da hora de abrir os presentes e de um último desafio "Abre com cuidado para não rasgar o embrulho! Guarda o laço, dá para aproveitar para outros presentes."
O Natal lá em casa acabou no ano que nos disseste Adeus. Acabou a voz de ponto a orientar-nos o tempo todo. Acabaram as corridas ao musgo, acabaram as decorações pela casa e as luzes a piscar.
Acabaram os assaltos aos doces e aletria quente junto à salamandra.
O Natal lá em casa é agora apenas mais uma entre tantas outras datas que gritam a tua ausência aos nossos ouvidos.

sábado, 7 de setembro de 2019

A linha de comboio


Reza a história que foi construída uma linha de comboio entre Veneza e Viena mesmo sem existir ainda um comboio para fazer o percurso - os habitantes locais, no seu íntimo, sabiam que construindo o caminho o comboio acabaria por chegar para ligar aqueles dois pontos que pareciam tão distantes entre si.
Creio que ainda é assim que nos vejo – dois lugares distantes, isolados. Dois lugares cheios de tudo, de vida, de aventuras, de emoções, dois lugares que lhes falta apenas o caminho a ligá-los. Creio que é nisso que todas as partículas do meu ser, cada molécula e cada átomo, trabalham afincadamente, diariamente, contra a minha vontade. Teimam em construir, sozinhos, um caminho até ti.
E tal como construir uma linha de comboio, construir uma ligação entre nós é um trabalho moroso, por lugares tortuosos, difíceis de aceder e de percorrer. Encontro centenas de pedras e de obstáculos sem fim. Perco as forças, sento-me em derrota e abandono as ferramentas de trabalho respingadas de suor e sangue. Já perdi conta à quantidade de vezes que virei costas a esse trabalho, que procurei rotas alternativas, outros lugares para visitar, menos difíceis, menos inalcançáveis, mas de alguma forma, nesses espaços de tempo que parecem não ter fim, enquanto me encontro à deriva nos meus próprios mares de anseios e emoções, acabo sempre por voltar a essa linha de comboio, meia construída, meia tapada por ervas daninhas e poeira do tempo de abandono. De alguma forma as minhas mão são impulsionadas em agarrar novamente na pá e retomam o trabalho que tinham deixado por terminar. De alguma forma encontro forças para fixar mais um balastro, de avançar mais um pouco em direção a ti, ao teu mundo desconhecido e misterioso.
De alguma forma, há uma voz que não me deixa parar, que me avisa que um dia virá o comboio até ti e que me diz que vou adorar a viagem.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Sabes a minha morada, sabes onde fica a minha caixa de correio, aquela onde deixaste as chaves, daquela vez lembras-te? Aquela vez em que tudo (re)começou, quando, já não te servindo para mais nada, escolheste não querer ver-me. Preferiste a caixa do correio.
Sabes o meu contacto, aquele que disseste já ter guardado num sítio seguro, p'ra quando mudasses de número não me perderes, lembras-te? Aquele número, gravado com aquele nome que escolheste ignorar quando apareceu no teu visor “tenho saudades tuas.”
E queria eu poder marcar o teu número no meu telemóvel, voltar a dizer, tantas vezes quantas fossem preciso para ganhar o teu coração, as saudades que tenho de ti, da tua voz, dos teus abraços onde o tempo parava, onde o teu perfume e os teus beijos me inebriavam mais que qualquer licor. 
Queria contar te sobre o meu dia, rir das nossas vitórias contra o mundo que lutava contra nós - sim, na verdade era uma luta, mas eu batalhava sozinha por algo que nunca existiu.
Mas sabes, sem que o quisesses ensinaste-me a não confiar em ti, a não contar contigo. 
Ensinaste-me da pior forma que apenas poderia contar comigo neste estranho amor que eu acreditava existir. 
Com todas as vezes que me deixaste desamparada, ensinaste-me o caminho para te largar. 
Em todas as tuas ausências que chorei, mostraste-me que só as minhas mãos poderiam limpar as minhas lágrimas. 
Deste-me todas as armas para lutar contra a minha vontade de ficar à tua espera e só assim consegui perder-me de ti. 
Quase morri de saudades... quase! 
Mas o teu desprezo trouxe-me de volta à Vida.

sábado, 15 de setembro de 2018

Vítima de amor

Nunca me prometeste nada 
Mas é a um qualquer fio de esperanças 
Inventadas por mim num de tantos devaneios
Que continuo a segurar me 

Nunca me deste nada 
Mas é de alegres memórias falsas 
Guardadas nos recantos dos meus anseios 
Que o meu cérebro insiste em lembrar-me

Em cada olhar de ódio, 
Em cada discussão e em cada grito, 
Em cada puxão de cabelos,
Em cada murro e em cada pontapé, 
Ela quis ver Amor.

Quantas mais mentiras lhe vais dizer 
Quantos mais versos ela vais escrever 
Quantas mais lágrimas vai derramar 
Quantos mais abusos vai o coração dela aguentar 
Até desistir de bater, 

E parar ?



Dedicado a todas as mulheres que sofrem em silêncio. 

terça-feira, 28 de agosto de 2018


Para quem sonha com Amor verdadeiro é difícil aceitar os pesadelos da realidade. Para quem procura Amor verdadeiro, é difícil manter a fé ao fim de tantas derrotas. 
É confuso ver como pode uma simples palavra de quatro letras ser tão complexa. Para uns chega cedo, cheio de felicidade, de filhos e de momentos felizes. Para outros chega cedo e acaba ainda sem ter desabrochado, murcho entre desentendimentos e traições. Há quem o descubra tarde e viva o resto dos dias preenchidos de alegria, há quem descubra tarde demais. Há quem nunca descubra.
O Amor parece sempre louco, imaturo, inconstante. Parece ser sereno, cheio de paz e pureza. O Amor tem lágrimas, tem desaforos, Amor precisa de comunicação, de cedências. 
Amor precisa de Amor. Todos precisamos de Amor e o Amor precisa de todos para viver.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

#projectomeianoite - conto 5

Meia-noite. Acordou numa sala de paredes altas, numa cor que em tempos foi um branco fluorescente. O ar que sentia entrar-lhe nas narinas era gélido, o clima era de morte. As luzes que provinham de umas lâmpadas amarelecidas pelo tempo tremiam, conferindo àquela divisão taciturna um aspeto ainda mais assustador. As paredes estavam totalmente nuas. A única mobília daquela sala eram duas cadeiras e a mesa. “Quero sair daqui!”
Ao longe ouvia o mar bater teimosamente nas rochas e o vento não parava de assobiar. Em silêncio, imaginava-se sentada na plateia de areia molhada, apenas a admirar aquele espetáculo de ondas.
O sol já se tinha escondido atrás das colinas há tantas horas quantas as vezes o seu pensamento tinha divagado algures entre aquela sala gelada e os grãos de areia daquela praia que estava naquele dia mais salgada.
- “Maldita camisa, não me consigo mexer!” - Por muito que lutasse, ela vencia sempre. - “Merda de trapo estúpido!”
O mar continuava a bater furiosamente nas rochas, como se estivesse a medir forças com o vento que não perdia fôlego a assobiar entre as falésias.
De olhos fechados, imaginava o sabor do sal a beijar-lhe os lábios gretados. Desejava tanto estar naquela praia que quase sentia a água salpicar-lhe os dedos dos pés.
As veias começavam a latejar-lhe na testa e as pontadas na cabeça não tardava iriam voltar.
Era meia-noite e diariamente aquele desejo colocava-a em transe enquanto se enroscava preguiçosamente entre os cobertores.
Estava tão habituada a ostentar a máscara de sorrisos que só aqui, apenas na companhia dos seus pensamentos permitia que ela caísse e os rios de lágrimas corressem livremente pelas suas faces ressequidas.
Estava tão habituada a ostentar felicidade que se esquecia que guardava no peito um coração desfeito. Queria gritar por ajuda, qual náufrago delirante no meio do mar, mas poupava o seu fôlego para sustentar a mentira mais socialmente correta: “está tudo bem”.
Acabava sempre por disfarçar os seus sentimentos, na esperança que não fossem reconhecidos, num pânico constante de serem vislumbrados num olhar mais despido, com o pavor de nesse instante todas as suas fortalezas, que até então tão ferozmente tinha defendido caíssem por terra e que também ela caísse num abismo sem fim, sem um abraço para a poder amparar e salvar do mergulho galopante nessa escuridão. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

#projectomeianoite - conto 4

Meia-noite. Escrevo pausada e apaixonadamente. Transformo em letras o ritmo do meu coração e teletransporto a minha mente sem que o meu corpo saia da frente do computador que recebe o bater mecanizado dos meus dedos nas teclas já desgastadas.
Numa viagem rápida, ultrapasso a cápsula do tempo e do espaço e aterro numa casa que cheira a mar.
«Devo ter deixado a janela aberta com a pressa.» Dispo aquela farda que me sufocou o dia inteiro, impregnada de sal. Corro pelas divisões em busca dele e encontro-o, poucos instantes depois, apenas de toalha à cinta. Presenteia-me com o seu mais belo sorriso, os seus braços fortes puxam-me na sua direção e beija-me apaixonada e calorosamente, como se fosse a primeira vez.
O banho estava preparado: água quente, espuma e pétalas de rosas. Há champanhe. Respiro o meu conto de fadas até à última lufada, como se este pudesse acabar antes de sequer ter começado.
Os números vermelhos e brilhantes do rádio-relógio marcam meia-noite. Já deitados vejo o peito dele subir e descer, num ritmo calmo. O corpo cansado repousa descoberto, tentando compensar a temperatura elevada do ar que enche a divisão. Os raios do luar atravessam a janela entreaberta, permitindo-me admirar os contornos que definem tão doce existência.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Mãe.

Hoje fui visitar a minha mãe. À campa. Quase um ano passado e dói demasiado ver o seu rosto sorridente naquela moldura de lápide. Não combina, não faz sentido. Não consigo ir lá tantas vezes quanto deveria, quantas vezes seria política e socialmente correto, mas eu não vivo de aparência, vivo de memórias. Ainda estou a lutar para conseguir sorrir e conseguir segurar as lágrimas cada vez que penso nela.
Cada um deveria poder viver o luto como melhor suporta sem ter os dedos reprovadores alheios, a julgarem o número de visitas a um cemitério. Não são essas visitas que traduzem as saudades que eu tenho dela. Não são as vezes que estou lá, em frente ao granito adornado de flores que mostram a falta que faz na minha vida, nas nossas vidas. Não passou um dia desde que ela foi que não esteja no meu pensamento, nos meus sonhos, em tudo. Há tanto que acontece que me pergunto o que teria para dizer, quantos sorrisos teria para me dar, quanto abraços para me apertar, quantos “força filha, pensa positivo” para me dizer. Apenas imagino na minha cabeça e lembro-me do medo que tenho de esquecer o som da voz dela, a doçura do olhar, o calor dos beijinhos com que me enchia cada vez que me via. Tenho medo que o tempo seja cruel e apague tudo.

Quase um ano se passou e cada vez faz menos sentido.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Amar, lutar e outros devaneios de fim-de-semana

Estes dias estava no sofá e enquanto os meus olhos se distraiam com a televisão o meu pensamento divagava, completamente alheio ao que se passava no exterior e dei por mim a fazer uma comparação tonta entre o amor e a matemática. Passo a explicar: a primeira coisa que aprendemos na matemática é que 1+1=2. E a primeira coisa que nos ensinam sobre o amor? É que o amor acontece quando um rapaz e uma rapariga gostam um do outro e ficam juntos. Ok, parece simples. Depois a coisa começa a complicar, entram as multiplicações, as subtracções, as divisões - e entram os ciúmes, o "já não gosto de ti, gosto de outra pessoa" ou o pior e catastrófico "só gosto de ti como amigo" que é o equivalente matemático a "qualquer número multiplicado por zero, dá zero".
Parece estranha esta comparação mas na verdade não é de todo totalmente descabida. A matemática é complicada, o amor também. Há quem domine a matemática e quem encontre um amor para a vida toda ainda na primavera da vida. Há quem precise de explicações para passar e quem procure os conselhos dos amigos para o primeiro encontro. E quando achamos que já estamos a dominar a ciência da coisa, bam!, entram as equações de segundo grau ao barulho, com mais uma incógnita para descobrir: estava tudo tão bem, ficavam tão bem juntos, porquê que acabaram?
Tal como na matemática, com os seus problemas sem solução, o amor tem razões que ninguém entende. Faz sentido?

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

#projectomeianoite - conto 3

Meia-noite em ponto. 
Abriu os olhos, assustada. Estava tudo escuro. Inclusive o DVD estava desligado. «Não devia ter bebido o segundo copo de vinho’» pensou. Chamou por alguém. Mas que se passava com a sua voz? Não a ouvia!
Levantou-se do sofá, a medo. Tornou a chamar, em mais uma tentativa falhada. Percorreu os longos corredores da casa a procura de alguém. Mas que corredores, se a casa não os tem?
«Onde estou?» Dirigiu-se instintivamente ao WC. Despiu a roupa e preparou-se para um duche antes de se deitar. Finalmente ouve-se um grito naquele silêncio mortífero. Era dela. Corria sangue das torneiras. Fugiu envolta na toalha à procura de alguém. Encontrou um mordomo e tocou-lhe. Ou não. Não tinha a certeza, pois a sua mão atravessou-o, como se de um fantasma se tratasse. As relações com o mundo que a rodeava tinham diminuído drasticamente, ao mesmo tempo que tinham aumentado as conversas consigo própria. A loucura tinha-lhe tomado o cérebro de tal forma que quando o viu achou ser fruto dos seus delírios quase diários. Volta-se em busca de um pingo de realidade naquela alucinação. Perde os sentidos. Vê caras sem rostos a agarrarem-na e a prenderem-na. Mais uma vez tenta pronunciar qualquer palavra. 
Nada sai da sua boca.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

#projectomeianoite

Sabem aquela idade em que toda a gente acha que tem muito para ensinar ao mundo?
Que tem algo extremamente importante a dizer?
Em que acha que pode ser tudo - escritor, modelo, pintor, activista, and so on...?
Pronto, eu achava que podia ser uma escritora de sucesso e tive uma ideia fantástica: escrever um livro de contos (incompletos?) em que a única coisa que tinham em comum era apenas o horário em que se desenrolava a história - à meia noite (está explicado o título do post). Escusado será dizer que foi um projecto que ficou na gaveta e que agora voltou a ver a luz do dia (ou a luz do meus olhos?) enquanto andava eu a fazer as minhas arrumações mentais depois do desafio que me foi proposto - que é como quem diz «só quero descobrir onde tinha eu imaginação para escrever tanta m....».
Portanto, se quiserem acompanhar mais devaneios de quem não tem mais em que pensar (ou não quer...) é so seguir o hashtag #projectomeianoite.

P.S.: Eu não matei ninguém. Só para ficarem já os pontos nos i's.
P.S.2: Quero reforçar a parte de "projecto de gaveta"...ou seja, rascunho! Digamos que isto é work in progress, sem data limite de conclusão...ok?


Jane.

#projectomeianoite - conto 2

Meia-noite em ponto. Ela olha fixamente para o computador à sua frente. A luz que emitia iluminava toda a divisão ainda vazia.
Meia-noite em ponto. Ela prepara-se para escrever, de novo. Precisava desta rotina mais do que nunca. Precisava desta rotina como um drogado precisa de uma dose. Tecla após tecla, ela transforma em palavras os seus sonhos e as suas angústias.
Esvazia a mente, recicla pensamentos e reutiliza as memórias. Tecla após tecla, entra lentamente num outro mundo, num mundo só dela. Entra num mundo virtual, fruto da sua característica imaginação fértil.
Nessa noite estava presa num labirinto. Procurava ansiosamente por palavras, quaisquer umas. Mas palavras. Talvez perdidas num recanto qualquer do sótão da sua mente…

“Um dia acordei e não me conseguia expressar, feito difícil de igualar! Mas passo a explicar:
Tive um sonho complicado, pensava eu, de raciocínio ensonado, em que todas as palavras saiam mecanizadas, correctamente alinhadas, como uma fila de montagem, sem falhas, sem redundâncias. Sem 'mas' nem 'porquês' possíveis de saber. Directas, frias, inumanas por assim dizer.
Tudo o que me saía da boca transportava uma realidade nua e crua, sem dó nem piedade, e trespassava quem se metesse à frente, fosse ou não o destinatário mal fadado de tal literária crueldade.
E em bem fechava a boca, e bem as queria engolir, mas elas voltavam a subir, maiores, em força, com sede de vingança, e eu, perante tanta ânsia, lá as deixava sair.
Pobres letras, escravizadas por tanta crueldade, aterrorizadas de verdade!
E eu, quando acordei, sem me conseguir expressar, abri a boca num ensonado bocejo, e oh! , o que vejo, um vomitado de letras apavoradas!
Todas encolhidas, bem sofridas, cheias de sangue e de medo, aspecto pavoroso, perdidas num frenesim. Foram arrancadas do meu ser a ferro e fogo!

E para meu espanto, que feito horroroso, já nada restava de palavras em mim!”

sábado, 30 de dezembro de 2017

Back...?

Recentemente fui desafiada a escrever de novo antes do fim do ano chegar- e quando digo recentemente digo há três dias atrás. Right! Fiquei inicialmente estática a olhar para aquela mensagem, com os olhos esbugalhados, reacção essa que foi rapidamente substituída por um riso trocista como quem diz «pfff sonha! Já não sei escrever».
«...Já não sei escrever!». Aquelas palavras ficaram a ecoar no meu cérebro, todo este tempo, provocando uma nostalgia dolorosa ao relembrar a forma tão simples e leve como antes conseguia fazer deslizar o que me ia no coração pela pontas dos meus dedos, num teclar quase automatizado...Mas, como estava a dizer, fiquei todo este tempo a matutar neste assunto, com a minha linha de pensamento saltitando entre temas. Escreverei sobre o Amor? Sobre os meus sonhos? Sobre a Saudade, aquela palavra tão portuguesa, tão sentida por um povo que só sabe murmurar queixumes? 
Eu gosto de desafios. São os desafios que nos fazem crescer, aprender, evoluir como pessoas. Somos desafiados desde crianças - quem acabar a sopa primeiro recebe um prémio. Quem se portar melhor na escola recebe um autocolante em forma de cara a sorrir. Quem tirar melhores notas terá mais sucesso, and so on. Para além de gostar de desafios, tenho muito mau perder. Um desafio para mim é uma aposta - que eu quero ganhar.
Assim, cá estou eu, recostada no sofá, computador no colo e uma página em branco perante os meus olhos. A única coisa que me passa pela cabeça é que se passou mais um ano - se passou mais um ano. É inevitável neste altura olharmos para trás e colocarmos na balança o ano corrente versus o ano anterior e claro, como Humanos que somos, fazer comparações. 
No ano passado, por esta altura escrevi isto: