quarta-feira, 21 de setembro de 2016

De regresso e do avesso

Sentei-me em frente ao computador, na ânsia de conseguir escrever, traduzir em meia dúzia de palavras atabalhoadas o caos que vai na minha cabeça. Tenho a gata a correr como uma louca pela casa, e rio-me sozinha, quando me apercebo que ela é a melhor metáfora para o estado da minha vida neste momento.
Tinha tudo tão planeado, ao mais ínfimo pormenor, que me esqueci que a vida podia seguir por alguns atalhos que eu não conhecia assim tão bem, e desviar-me do meu tão cuidadosamente planeado trajecto, atalhos esses tão irónicos, que normalmente só me daria vontade de rir às gargalhadas.
Portanto cá estou eu, sentada no sofá, meia atordoada, sem saber bem o que dizer, com uma manga rasgada e um olho negro da coça que 2016 me está a dar e é nestas alturas que penso em como é bom ter o tempo todo ocupado, em que o pouco que sobra é para cumprir com as minhas necessidades básicas.
Ao fim de cinco anos de partilha de histórias, de momentos, de aprendizagens, acabei um noivado. Acabei uma relação com um homem que me jurou amor eterno, e que sei que iria cumprir essa jura.
Ensinaram-me sempre a lutar pela minha felicidade e em nunca baixar os braços e querer sempre o melhor para mim. Eu não era feliz, mas ele era bom para mim. Desde então luto com a minha consciência, numa tentativa de perceber se não seria ele o melhor para mim, e eu, cega, é que não fui capaz de ver isso.
Será possível, com a ânsia de querermos tudo - um bom trabalho, uma boa casa, qualidade de vida, família, amor, dinheiro, saúde -  nos perdemos, e acabarmos por ficar sem nada?
Poucas pessoas sabem a exacta razão da minha decisão mas em todas elas existe uma opinião em comum: se não era feliz, foi a decisão certa, e (cliché) além disso, ainda sou nova, e irei com certeza encontrar alguém. Irei encontrar a tampa para a minha panela.
Mas, e se não encontrar? E se esta decisão fez desmoronar todas as hipóteses que existiriam de ter o meu "happy ending"?
Eu acredito piamente no destino, e acredito que tudo o que acontece tem uma razão para tal, e enquanto digo isto, fecho os olhos com força, engulo as lágrimas, tento esquecer que para cada homem existem sete mulheres, e forço-me por acreditar que o meu príncipe encantado está algures por aí. Se já me conheceu, ainda não sabe que eu sou a Cinderela dele, e se ainda não me conheceu, anda a vaguear por aí, meio perdido, até se esbarrar comigo e finalmente poder viver o «felizes para sempre», como se de um filme da Disney se tratasse.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

desabafos de uma lojista

Acabei a licenciatura e comecei a trabalhar para pagar as contas, para pagar a casa, e para pagar o mestrado. Comecei cheia de energia e confiante que seria temporário, que iria acabar o curso rápido e que não ia ficar muito tempo.
Comecei a trabalhar porta a porta, sem salário base fixo, sem subsídios. Andava a mendigar contratos, ao sol e à chuva. Cheguei a tirar 1400€ num mês e 30€ noutro. Sim, trinta euros. Mas nada me fazia desistir, nem as portas batidas na cara, nem as que se trancavam atrás de mim, mal passava a ombreira, a temer que poderia não sair mais de lá. Mas o tempo foi passando, e as aulas iam ficando para segundo plano.
Um ano depois fui a entrevista para uma loja, e a primeira coisa que me é dita quando indico que sou estudante é que não teria direito a estatuto de trabalhadora-estudante. “Queremos que estejas 100% focada no teu trabalho”. E as aulas ficaram para trás. Passaram-se alguns largos meses, e transferiram-me para uma loja de shopping. Vi aí a minha oportunidade de voltar a estudar. Candidatei-me a tempo parcial, e fui colocada. Fiquei tão feliz. Aquela energia toda que tinha voltou, e acordava todos os dias novamente confiante que agora é que era, agora é que ia acabar o curso e pirar-me dali. Mas a ginástica entre a loja e as aulas era enorme. E é cada vez maior, à medida que as disciplinas vão ficando mais trabalhosas. Não sei o que é ter folgas só para mim, pois quando não estou a trabalhar estou a ter aulas, quando não estou a ter aulas estou a trabalhar. Não sei o que é ter tempo para cuidar da minha casa. As férias são tiradas em épocas de exames e todo o dinheiro é gasto em contas e estudos. “Chapa ganha, chapa batida”.
Sabe o que é trabalhar numa loja de telecomunicações? É ser destratada todos os dias. Por pessoas que não sabem falar, não sabem estar e acima de tudo, não sabem o que é respeito. É estar num ambiente de pressão gigante, levar com reclamações adornadas de gritos e de salpicos de saliva, e mesmo assim manter-me impávida e serena, solícita e prestável.
Por detrás da assistente a quem gosta de atirar com todas as suas frustrações está um ser humano. Que luta, todos os dias, por não desistir, por não se deixar afundar num emprego sem futuro, por não se deixar ir abaixo e parar de estudar e de lutar. Está um ser humano que se sente inferiorizado sempre lhe chamam de incompetente, imprestável, que olham com desprezo e desdém, mesmo quando esse ser humano já fez tudo o que estava ao alcance para o tentar ajudar, que não encontra outra forma de lhe explicar que de momento, é tudo o que pode fazer.

“Um canudo não te garante emprego”. Sim, tem toda a razão, mas é a única luz que muitas vezes ainda se vê no fundo do túnel. É a única luz que nos faz levantar todos os dias da cama, e acreditar que algo melhor está reservado para nós. Algo melhor que ficar eternamente atrás de um balcão.